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COMO UM LIVRO DE CONTEÚDO TÃO ERÓTICO FAZ PARTE DO CÂNON SAGRADO?

Cantares de Salomão não foi aceito de imediato como inspirado por Deus. Haviam muitas dúvidas se ele deveria ou não ser incluído no cânon bíblico. Pareceres favoráveis e desfavoráveis,  geravam calorosas discussões quanto ao fato dele pertencer ou não ao conjunto das santas revelações divinas para os homens. Toda oposição à sua inclusão se devia a natureza erótica do seu conteúdo. A solução para este dilema foi interpretá-lo não no sentido literal, mas como uma alegoria. Mesmo depois de incluído no cânon, essa interpretação prevaleceu durante muitos séculos tanto entre judeus, quanto entre cristãos em geral. Os judeus entendiam sua mensagem como um poema alegórico do amor entre Deus e Seu povo. Seguindo esse mesmo padrão, os cristãos viam nele, a descrição alegórica do amor entre Cristo e Sua Igreja. O problema dessa interpretação era que o livro podia significar qualquer coisa que a imaginação do intérprete pudesse inventar. Isso ameaçava a credibilidade de sua mensagem. Assim, a escola de interpretação alegórica, praticamente desapareceu por se tratar de um caminho inaceitável para interpretar a Bíblia. Por esta razão, no que diz respeito à interpretação bíblica, apenas são aceitos os métodos que nos permitam extrair o significado das palavras com base no sentido claro e literal delas, como foram escritas. Fundamentados nisso, Cantares de Salomão está falando do amor humano entre um homem e uma mulher a respeito do qual Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” e também: “Por isso, deixa o homem pai e mãe, e se una à sua mulher, tornando-se os dois, uma só carne (Gn 2.18 e 24).

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LANÇANDO LUZ SOBRE O LIVRO DE CANTARES DE SALOMÃO

Considerando que Salomão escreveu 1005 cânticos (1 Rs 4:32), este seria o “Cântico dos cânticos”, ou seja, “o melhor de todos os seus cânticos”. Esse livro está classificado como Literatura Sapiencial, ou Literatura de Sabedoria – gênero que apresenta a filosofia ou a maneira de viver do povo hebreu e de outros povos do Oriente Próximo.
      Os personagens principais são o amado (talvez Salomão) e a amada, chamada de Sulamita. Esta talvez seja Abisague, moça de Suném, vilarejo da Galiléia, que cuidou do rei Davi quando ele estava idoso. Ela foi causa de briga entre Salomão e seu irmão Adonias (1 Rs 1:1-4 e 2:13-25). A troca de “Sunamita” para “Sulamita” teria se dado para combinar com “Salomão”. Em hebraico “Salomão” e “Sulamita” têm a mesma raiz (shlm). Como personagens secundários, aparecem ainda os guardas (5:7) e as “filhas de Jerusalém” (5:8), que fazem o coro.
      O tema geral do livro é o amor. Mas que tipo de amor? Se bem que o amor platônico (sem sexo) esteja presente no livro, é o amor físico, erótico, que é ressaltado. Deve-se lembrar que a Bíblia não considera a sexualidade como algo pecaminoso. Ao contrário, a sexualidade é apresentada como um dom divino. Nossos primeiros pais foram criados seres sexuados, para procriação, companheirismo e apoio mútuo, e isso “era muito bom” (Gn 1:27, 31). Cantares celebra a dignidade e a pureza do amor humano.  Neste mundo pecaminoso, em que a corrupção moral nos bombardeia por todos os lados, em que tentações ferozes nos assaltam e tentam prostrar-nos, quebrando os padrões divinos para o casamento, Cantares nos lembra de maneira particularmente bela como é puro e nobre o verdadeiro amor.
      Sete princípios básicos sobre amor e sexualidade são apresentados em Cantares: (1) que o sexo é uma dádiva do Criador, (2) que o envolvimento sexual deve ocorrer com maturidade e responsabilidade, (3) que a virgindade deve ser preservada até o casamento, (4) que o amor deve ser expresso livremente, (5) que, à semelhança de uma planta, o amor deve ser cultivado e regado, (6) que o amor verdadeiro inclui sexo, mas vai além dele, e (7) que o amor, como Deus, é eterno.

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